João Nuno Fonseca: «Sonho? Ouvir o hino da Liga dos Campeões»

Técnico aborda o futuro e a realidade que gostaria de abraçar, a participação de Portugal no Mundial 2026 e o sucesso do Torreense de Luís Tralhão - PARTE IV

João Nuno Fonseca está atualmente sem clube, mas com um olho no que está por vir. A vontade de integrar um projeto é muita, idêntica mesmo à «vontade de ganhar». O sonho é muito claro e passa por um dia ter a oportunidade de ouvir o hino da Champions.

Quanto à participação de Portugal neste Campeonato do Mundo, fala sobre os aspetos a melhorar e deixa uma garantia: a Seleção ganha mais se tiver Cristiano Ronaldo em campo.

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Maisfutebol (MF): Ficou alguma mágoa por não ter estado na conquista da Youth League com o Benfica?

João Nuno Fonseca (JNF): Estive lá no ano em que fomos à final e perdemos com o Real Madrid. Não fica nenhuma mágoa, de todo. Uma das coisas que sabia e sentia por parte do Luís Castro é que o Luís ia regressar a Nyon para ir buscar o título. Ele próprio disse isso quando perdemos a final. Essa ambição e esse querer estava lá. Foi tudo conseguido pelo trabalho feito pelo Luís e pela restante equipa técnica. Eu dizia muitas vezes aos jogadores que o mundo não começa e não acaba no Benfica. O mundo está cá para nós, seja jogadores ou treinadores. Tive de regressar ao mundo. Estive dois anos no Benfica, mas antes já tinha estado no Qatar e depois do Benfica fui para França, num contexto de Liga Francesa. Tive nesse ano outras dimensões e outras valências.

MF: Luís Tralhão teve uma época quase perfeita ao serviço do Torreense. Qual será a postura do clube na Liga Europa na próxima época?

JNF: Acredito que a II Liga será sempre a prioridade. O acessório será a Liga Europa, apesar de se poder fazer uma gracinha. Eu recordo que estive na conquista da Taça de Portugal com a Académica, em 2012, e sei perfeitamente que nesse ano da conquista, nós estivemos para descer de divisão a duas jornadas do fim. Fomos ao Jamor, ganhámos a Taça de Portugal e fomos à Liga Europa. Acredito que vá ser uma participação do Torreense para desfrutar daquilo que é uma competição europeia. Sem pressão de ter de se ganhar ou fazer pontos. É sobretudo valorizar os ativos que o clube, futuramente, vai querer vender. Acredito que, internamente, o objetivo seja subir de divisão. Um Torreense que ganha a Taça de Portugal quer subir de divisão, não o conseguiu, e vai querer fazê-lo este ano. Como o Torreense está, mas dez equipas na II Liga vão estar. Terão de imperar os objetivos traçados pelo clube.

MF: Estamos em período de Mundial e é altura de sonhar com a conquista do troféu. É possível fazê-lo?

JNF: Não podemos confundir a nossa vontade com a realidade. Todos temos vontade que Portugal seja campeão do mundo. Qualquer português quer ser campeão do mundo, sentimos que está ali e que temos a capacidade. Ter isso num torneio de um mês é algo que tens de saber preparar, não apenas nos meses antes da competição, mas ao longo de um processo de dois ou três anos. É aí que crias uma identidade para a tua Seleção. Apesar de termos sido dominadores em alguns dos encontros, acho que Portugal pode render mais do que está a render. Sobretudo ao nível do jogo posicional.

MF: Portugal ganha mais com Cristiano Ronaldo a titular ou no banco?

JNF: Ganhamos sempre a ter o Cristiano. Neste momento, se visse que fisicamente os índices do jogador não estavam lá… temos é de dar as nuances certas ao jogador. É preciso criar condições para o Cristiano marcar mais vezes. O Cristiano estando lá vai ser decisivo, ele vai marcar. Vai errar muito menos do que qualquer jogador. É preciso jogar e criar situações para e não pensar que ele vai fazer as coisas sozinho. Temos um jogador de altíssimo nível, todos só se devem sentir lisonjeados na nossa Seleção. Gosto muito do Cristiano e nos momentos certos, nas zonas certas, é decisivo como nenhum outro.

MF: No ano passado teve a experiência de participar no Mundial de Clubes com o Ulsan Hyundai (Coreia do Sul), nos Estados Unidos. Como foi a adaptação ao clima?

JNF: Eu acho que vai depender também, neste momento, da zona onde se joga. A zona de Miami é uma zona onde nós jogámos o primeiro jogo, na altura da fase de grupos do Campeonato do Mundo de Clubes. É uma zona extremamente húmida. Nós tivemos alguma dificuldade. Foram cerca de cinco ou seis dias, mais ou menos uma semana, para nos adaptarmos ao fuso horário e ao clima, mas foi uma adaptação muito exigente. Portanto, para Portugal isso não será um problema, será mais a questão da gestão de esforço que os jogadores terão de ter, face às épocas. Eu digo épocas, porque temos jogadores que já vêm, dadas as temporadas, praticamente sem férias.

MF: (…)

JNF: Se formos a ver Vitinha ou o Nuno Mendes, no espaço de dois anos, vê a quantidade de competições que jogaram e que tiveram em momentos decisivos. Acho que este Mundial vai ser muito focado naquilo que é o treino, naquilo que é a recuperação, naquilo que é dar nuances praticamente em andamento. Agora, a gestão fisiológica será muito importante.

MF: Depois de uma época marcada pela primeira experiência enquanto treinador principal, o que lhe reserva o futuro?

JNF: Olha, o futuro… Eu gostava, obviamente, que fosse numa estrutura e num clube onde fosse mais fácil e rápido para integrar aquilo que é a minha vontade e intenção para um determinado jogar. Porque tu estando só focado nisso, e só estando focado naquilo que é o rendimento que queres para a tua equipa no treino, na forma como tu queres ver a equipa, acho que vais estar mais próximo de fazer um bom trabalho. Acho que acaba sempre por prevalecer um pouco aquilo que é oportunidade e o acreditar em alguém que já passou por diferentes experiências, diferentes continentes, que fala quatro línguas de forma fluente. Tudo isso acho que acaba por ajudar aquilo que é a dinâmica de um clube. Agora, que quero muito ganhar, quero. Acho que isso ficou bem patente desde que eu entrei no Leixões, que a vontade de ganhar era imensa. Quero voltar novamente para um clube que me permita ganhar mais vezes.

MF: Qual é o principal sonho que tem para a carreira de treinador? Passa por chegar a um «grande» em Portugal?

JNF: O sonho, para mim, é ouvir o hino da Liga dos Campeões e ter essa oportunidade de um dia poder treinar uma equipa que esteja a disputar uma Champions. Acho que qualquer treinador que chegar a esse patamar, inclusivamente Mundial de seleções, acho que todos nós temos esse sonho. Já cumpri um, que foi o Campeonato do Mundo de Clubes, agora faltam ainda alguns para realizar, como treinador principal. Isso está no meu objetivo, mas há sempre um percurso para se fazer. Há sempre a oportunidade que tem de ser dada, porque muitas vezes falta essa oportunidade no contexto certo e no momento certo. E estou aqui, obviamente, pronto para esse momento dentro daquilo que me for apresentado.

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