A seleção não é o nosso psicanalista

O campeonato mal começou e já temos quase nove milhões de treinadores de bancada. Brevemente teremos dois treinadores per capita. A seleção já tem muito com que se preocupar. Não precisa de anti-adeptos

Não pensei que viesse a escrever sobre futebol, neste caso, sobre a seleção. Não percebo nada de futebol, só percebo um bocado de estratégia e de tática.

Vi o primeiro jogo no aeroporto de Paris, pouco antes de ficar bloqueado pela presença dos imponentes Air Force One e Two na chegada de Donald Trump à cimeira do G7. Ver o jogo no pequeno ecrã do telemóvel dá-nos uma visão diferente do jogo. Os jogadores parecem todos mais juntos, mais unidos. Talvez muitos devessem ver os jogos da seleção no telemóvel, em vez de recorrerem aos mega ecrãs das Fan Zones espalhados pelas cidades ou aos televisores de 150 polegadas que compraram, aparentemente, não tanto para ver os jogos, mas para poderem criticar os jogadores até ao fio do cabelo.

O campeonato mal começou e já temos quase nove milhões de treinadores de bancada. Brevemente teremos dois treinadores per capita.

Não é mau ter todos esses treinadores. É até legítimo, engraçado e cultural. Os portugueses têm isso de especial: um ego que lhes permite achar sempre que são melhores do que o chefe, melhores do que o treinador, melhores do que os dirigentes; e uma autoconfiança que lhes garante que poderiam exercer todos esses cargos em simultâneo. O mau é quando nos focamos em destruir mais do que em criticar. A crítica melhora, a destruição arrasa.

Temos dificuldade em entrar no projeto dos outros e em assumir os resultados desses projetos. Acontece no futebol, mas acontece em muitas outras áreas. Temos um problema nacional com a delegação. Delegar significa entregar a quem se confia e assumir os resultados dessa confiança.

Outros países vivem a festa do futebol. Os noruegueses trouxeram os vikings, o Congo tem o homem-estátua, os holandeses já se sabe o que serão. O futebol é, e deve ser, uma festa — e essa festa é para todos: jogadores, equipa técnica e adeptos.

O vício do “eu bem disse”

O que se está a passar com a seleção é mais do que futebol. É a cultura do “quero ter razão” e do “eu bem disse”. Basta abrir as redes sociais para ver o país inteiro à espera de poder dizer “eu bem disse”.

Dentro das empresas e na vida social temos milhares de exemplos de quem arrisca tudo, inclusive aquilo de que não entende nada, só para mais tarde poder dizer que teve razão e receber o auto-rótulo de especialista — muitas vezes sem fundamento, o que transforma essa razão num mero golpe de sorte. Quem atira para todo o lado acaba sempre por acertar algumas.

Vamos dar já de barato que todos os que criticam a seleção terão quase inevitavelmente razão. Vai ser muito difícil Portugal vencer todos os jogos e, portanto, seja por causa do treinador, do Ronaldo, do Vitinha, do Bernardo, de quem for, quem deitar abaixo agora vai acabar por ter razão nalgum jogo. A probabilidade de sermos eliminados algures é extremamente grande.

Relembro os tempos de Scolari, em que estivemos a ponto de não ter qualquer razão, e os tempos de Fernando Santos, em que não tivemos razão nenhuma nem na final.

Portanto, todos temos razão à partida. E se alguém tinha algo a criticar, podia tê-lo feito antes de começar o Mundial. Agora que começou, atirar com razões não é ser esperto. É jogar contra. A seleção já tem muito com que se preocupar. Não precisa dos habituais anti-adeptos, sempre contra tudo, só para poderem dizer no café ou nas redes que “eles é que sabiam”.

É como o gato de Schrödinger: o simples facto de o adepto observar e esperar o pior já ajuda a criar esse pior. Ou como a lei de Murphy: se algo tem de correr mal, vai correr mal — sobretudo quando muitos parecem querer que corra mal só para terem razão.

Vamos lá tentar ser um pouco mais construtivos e deixar a seleção fazer o seu trabalho, enquanto nós desfrutamos como adeptos e não como profetas da desgraça. A seleção não é nenhum psicanalista que tenha de servir frustrações alheias. Tenham razão em muitas outras coisas, mas não queiram ter razão sobre aquilo que ajudaram a destruir.

Não entendo nada de futebol, mas entendo de projetos — e isto é um projeto em curso, cujas interferências são tardias, desnecessárias e contraproducentes.

Aos adeptos cabem duas coisas: desfrutar e apoiar a seleção. Aos jogadores cabem outras duas: desfrutar e entregar tudo em campo.

E quem perdeu a vontade de torcer e de ser verdadeiro adepto da seleção tem ainda 47 seleções entre as quais pode escolher para apoiar.

Eu escolho delegar

Eu escolho delegar. Delegar na estrutura. Delegar no treinador. Delegar nos adeptos que vão ao campo puxar pela equipa. Delegar nos jogadores, ainda que me possa sair um meme engraçado aqui e ali.

Porque delegar é isso mesmo: confiar, mesmo quando dói, mesmo quando custa, mesmo quando o resultado não é o que sonhámos.

E é isso, no fundo, que nos vai separar de sermos só mais um povo de treinadores de bancada — ou de sermos, finalmente, um país que sabe acreditar nos seus.

Até provas em contrário, a taça é nossa!

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