“Um pássaro que voa nunca deixa rasto”: Porque é que o Japão é sempre tão arrumado no Mundial?
Adeptos e jogadores japoneses são conhecidos por manterem os estádios e espaços públicos impecavelmente limpos durante o Mundial, refletindo valores culturais aprendidos desde a escola, onde a limpeza faz parte da educação diária

Ninguém consegue prever os resultados das 48 seleções no Campeonato do Mundo da FIFA este verão, mas se quisesse apostar que o Japão será a equipa mais arrumada, provavelmente ganhava facilmente nas casas de apostas. Graças a uma expetativa social aplicada a todos os japoneses, nem se daria por eles terem estado lá.
Nozomi Morgan, fundadora e CEO da Michiki Morgan Worldwide e especialista em liderança intercultural, recorda vividamente a mudança de Seattle para Tóquio quando tinha oito anos, em parte devido à experiência escolar tão diferente.
“Uma das primeiras coisas que me surpreendeu mesmo”, conta à CNN, “foi que tiras os ‘sapatos de fora’ e trocas por ‘sapatos de dentro’; queres manter o interior o mais limpo possível.”
Mas isso era apenas o começo. Os pais tinham-na enviado para a escola com um zokin, que teria de usar todos os dias.
“Cada criança tem o seu próprio pano, várias peças de tecido reciclado, cosidas à mão, com o nome delas. Lembro-me especificamente que a primeira tarefa foi limpar a sala de aula.”
Todas as cadeiras e secretárias eram levadas para a frente; as crianças varriam e depois limpavam o chão com os seus pequenos panos:
“Parecia um pequeno jogo de limpeza, não era uma tarefa, era algo que fazíamos todos juntos.”
Morgan conta que, ao longo do ensino básico e preparatório, limpavam tudo, desde varrer folhas nas escadas até às casas de banho.
“Há um ditado: ‘Um pássaro que voa nunca deixa rasto’”, explica.
“Experimenta só uma vez”
No entanto, nem toda a gente gostava dessa experiência na sala de aula.
“Odeiei cada minuto”, confessa Hirokazu Tsunoda à CNN. “Ressenti isso, costumava pensar: ‘Porque é que temos de fazer isto? As salas de aula japonesas nem são assim tão sujas, e toda a gente usa os caixotes do lixo.’”
Hoje, nunca se diria que ele se sentia assim. Desde 2008, tem assistido aos Jogos Olímpicos e aos Mundiais, ajudando sempre a limpar o lixo deixado pelos adeptos nos estádios.
“Não é um sítio onde possas fazer o que quiseres só porque pagaste um bilhete”, considera. “Para nós, é um espaço sagrado. Se algo é uma paixão que realmente te importa, não queres deixar o lugar que significa algo para ti numa confusão. Por isso, apanhas.”
Tsunoda confessa que só quando era adulto, ao ajudar a limpar lixo na escola da sua filha, é que percebeu verdadeiramente o valor de limpar ou de não sujar desde o início.
“Há pessoas que falam mal dos adeptos japoneses por apanharem lixo nos estádios, dizendo coisas como ‘só querem atenção’ ou ‘é só para a aparência’. Mas o que eu quero dizer a essas pessoas é: experimentem uma vez.”
“Abrir comida meio comida ou uma bebida meio acabada é desagradável, sem dúvida. Mas depois de passares por isso, tens muito menos probabilidade de ser alguém que deita lixo para o chão”, acrescenta.
Tsunoda tornou-se o porta-voz não oficial dos adeptos impecáveis, mas deixa claro que está apenas a seguir o exemplo dos que vieram antes dele. E não são só os adeptos nas bancadas — a equipa também é impecável.
Ganhem ou percam, nos torneios de 2018 e 2022, o balneário ficou impecável após os jogos, sendo o único sinal da sua presença um bilhete de agradecimento e alguns origamis de gruas.
Há oito anos, Makoto Hasebe era o capitão da seleção do Japão na Rússia. Falando à imprensa, disse na altura:
“Tenho muito orgulho do nosso staff. O mesmo se aplica aos adeptos. Como normalmente vivo no estrangeiro e tive muitas oportunidades de visitar vários países com a seleção, sinto frequentemente que não há país com ruas tão limpas como as do Japão.”
“Acredito que o Japão como lugar e o povo japonês possuem um espírito maravilhoso. Tenho orgulho disso, não apenas como jogador de futebol, mas como cidadão japonês.”
Tsunoda afirma que leva sacos extra de lixo para os jogos e que adeptos de outros países estão a aderir.
“Há muitas vezes mais não-japoneses a ajudar do que japoneses. E nesses momentos faço questão de dizer em voz alta e elogiar: ‘Obrigado!’ Acho que ser elogiado por um japonês num país estrangeiro sabe bem e acredito que faz com que queiram repetir”, considera.
Fazer a diferença
Depois de uma vitória emocionante contra a Alemanha no Catar há quatro anos, os adeptos garantiram que todos saíram a ganhar. Um vídeo da limpeza tornou-se viral e a FIFA elogiou o esforço nas redes sociais.
“Cerca de 500 voluntários do estádio juntaram-se de toda a arena só para nos agradecer. Isso, para mim, pareceu algo verdadeiramente significativo”, afirma Tsunoda, respondendo a críticos que dizem que estes adeptos demasiado meticulosos podem estar a retirar oportunidades de trabalho nos estádios.
“No fim do dia, o estádio fica limpo, ninguém perde, e os voluntários e funcionários da limpeza podem ir para casa mais cedo.”
Tsunoda acredita que a recolha de lixo de forma altruísta é a porta de entrada para o voluntariado em geral, encontrando formas de beneficiar toda a gente.
Diz que já ajudou mais de 200 vezes em cenários de desastres naturais e, com ajuda de angariações de fundos comunitárias, consegue levar crianças afetadas ao Mundial para lhes dar uma experiência positiva. Afirma que sete jovens do terramoto da península de Noto de 2024 estarão no jogo contra os Países Baixos, em Dallas.
“A minha própria definição de voluntariado é esta: ‘remendar o problema de outra pessoa’. Não é que fazer voluntariado numa zona de desastre ou viajar para o Nepal para ajudar seja superior.”
“Pode ser simplesmente apanhar lixo. Pode ser ceder o lugar a uma pessoa idosa. Pode ser dizer: ‘Deixa-me levar isso’, a alguém com sacos pesados”, acrescenta.
“De todas as formas de remendar o problema de outra pessoa, acho que apanhar lixo tem a barreira mais baixa e a maior facilidade de entrada. E acredito que essa base, esse instinto de voluntariado, existe na maioria dos japoneses”, conclui Tsunoda.



