Noticia de ultima Hora No Mundial 2026 Portugal-Congo, 1-1 (crónica)
Portugal tropeçou na sua própria grandeza

Vamos imaginar o seguinte: um estádio coberto de vermelho até às orelhas, em completa euforia pelo seu herói, um oceano de esperança sem fim e uma equipa que junta alguns dos melhores jogadores do mundo. Parece um sonho, não é?
Provavelmente, um cenário assim, nem desenhado a régua e esquadro podia ser tão perfeito: tão convidativo para uma daquelas noites de glória que ficam gravadas a letras de ouro.
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Infelizmente para nós, portugueses, a Seleção Nacional tropeçou na sua própria grandeza.
Por breves instantes, a ilusão ainda conseguiu manter-se intacta. Foram aqueles cinco ou dez minutos, a seguir ao golo de João Neves: um menino que joga com a clarividência dos predestinados e a energia de quem parece ter o coração a bater nos pés.
No entanto, e quando o miúdo parecia ter destrancado a porta de um cofre, começou a sentir-se que a euforia a quebrar devagarinho. Portugal tropeçou na sua própria grandeza.
Este puzzle não seduz, mister
Bernardo Silva, por exemplo, começou encostado à direita, como se fosse um extremo, ele que já há muito nos ensinou que é no centro que rende mais. Mas o centro, nesta equipa, está mais sobrelotado do que uma praia de Portimão em agosto.
Há Vitinha. Há João Neves. Há Bruno Fernandes. Há demasiada gente, todos com características muito semelhantes, e Roberto Martínez ainda não encontrou uma forma de os encaixar a todos num puzzle que faça de facto sentido. Ou que faça a diferença.
Por isso Bernardo Silva foi uma nulidade e saiu ao intervalo. Entrou Francisco Conceição, com fogo nas pernas, e finalmente a Seleção Nacional conseguiu chegar mais vezes à linha de fundo. O esquerdino até criou duas boas ocasiões de golo, mas Ronaldo falhou ambas.
O que nos remete para outro problema. Cristiano é Cristiano e Portugal tem para com ele uma dívida que nunca conseguirá pagar. Mas este Ronaldo já não é o mesmo de há dez anos. Nem sequer de há cinco anos. Durante toda a primeira parte, terá tocado na bola umas cinco vezes.
Toques simples, curtos, daqueles passes em apoio aos médios.
No segundo tempo, e servido por Chico Conceição, conseguiu finalmente finalizar, mas nesta altura, nesta equipa, também ele é um problema. O que é mau, porque ele ainda tem utilidade. Basta ver como, de cada vez que a bola se aproximava da área, o Congo colava dois centrais em cima dele numa espécie de pão de forma, com a parte boa da sanduíche no meio.
Lá está, ele consegue ter utilidade pelo medo que mete nos adversários, pela preocupação que espalha na outra equipa, pelo entusiasmo que traz às barreiras. Mas é necessário encontrar-lhe mais utilidade. Perceber como retirar o melhor do que ele é: não do que foi há dez anos.
Como ferir os adversários?
Roberto Martínez ainda não tem soluções para nenhum destes problemas e Portugal continua a tropeçar na sua própria grandeza, lá está. Sobretudo frente a equipas que defendem com o bloco baixo, como fez o Congo, e convidam Portugal a fazer o trabalho todo.
O Congo, lá está que trazia a lição bem estudada.
Sabia exatamente em cima de quem tinha de fazer uma pressão mais forte. Vitinha, por exemplo, quase não tinha tempo para levantar a cabeça. Bruno Fernandes só podia jogar à vontade fora da zona de remate. E, se fosse possível, Ronaldo nem devia poder respirar.
A equipa que o mundo aponta como candidata ao título transformou-se, assim, num labirinto de passes estéreis. A bola circulava, sim, mas de forma mansa, periférica, como um satélite que orbita um planeta onde não consegue aterrar.
E com isso, voltaram as dúvidas, claro. Voltou o já famoso balde de água fria.
É que, vamos ser claros, foi um péssimo início para quem carrega a pesada coroa de favorito. Portugal saiu de campo com um ponto no bolso, mas com uma bagagem pesada de dúvidas. Há talento a rodos, há nomes que assustam qualquer adversário no papel, mas o talento, por si só, não ganha Mundiais.
Há muitos problemas por resolver nesta equipa, desde a fluidez ofensiva à capacidade de ferir o adversário no último terço.



