Um Cristiano Ronaldo “desorientado” não impediu a Seleção de chegar “à depressão mais profunda”: imprensa internacional não perdoa estreia de Portugal

Portugal dominou a posse de bola, mas não o jogo, João Neves e Vitinha foram as principais exceções numa exibição desinspirada, Bernardo Silva e Rafael Leão estiveram muito abaixo do esperado, e a velha questão sobre o papel de Cristiano Ronaldo: o consenso da imprensa internacional sobre a estreia de Portugal é quase unânime

Era suposto ser mais uma noite para Cristiano Ronaldo. Depois do hat-trick de Lionel Messi pela Argentina e dos dois golos de Kylian Mbappé e Erling Haaland por França e Noruega, respetivamente, a estreia de Portugal no Mundial de 2026 era aguardada como mais um palco para o capitão da seleção nacional.

O empate (1-1) frente à República Democrática do Congo acabou, no entanto, por gerar uma onda de críticas na imprensa internacional, que não poupou a equipa comandada por Roberto Martínez, questionou o papel de Cristiano Ronaldo e apontou o dedo a alguns dos principais craques portugueses.

“Cristiano não merece isto”

Para o jornal espanhol AS, a estreia portuguesa foi “discretíssima” e acabou por repetir uma história já vista em torneios anteriores: “bons jogadores, boas intenções, bom cartel… e muito pouco rendimento”.

“Em estreia no seu sexto Mundial, o desfecho para o mito da Madeira foi tão desolador como os anteriores”, escreve a publicação madrilena, acrescentando que o empate “devolve Cristiano e a seleção portuguesa à depressão mais profunda”.

Aritz Gabilondo, que assina a crónica do AS, considera que o capitão de Portugal viveu mais na “obsessão em satisfazer a bancada” do que propriamente na realidade de encontrar o golo.

Ainda em Espanha, o Sport fala numa “pobre apresentação” da equipa nacional e escreve que “Cristiano e Portugal afogaram-se contra o Congo”.

“Cristiano parecia desorientado e desligado do jogo. Procurava baixar no terreno para receber a bola, mas chegava tarde às zonas de finalização”, escreve Sergi Capdevila.

O jornal considera que a exibição do capitão português ficou “a anos-luz do que Messi mostrou horas antes” — ora não tivesse o argentino nem jogado 90 minutos e marcado três golos que lhe valeram a ascensão ao topo da lista de melhores marcadores em Mundiais, a par de Miroslav Klose.

Já nos minutos finais, acrescenta o Sport, Portugal atacou “mais com coração do que com ideias”, lançando-se para a frente “sem ordem” e “aos fogachos”.

No Reino Unido, a Sky Sports fala mesmo do “problema Ronaldo que Portugal se recusa a resolver”. Segundo a análise de Callum Bishop, a discussão sobre o papel do avançado acompanha a seleção portuguesa há vários torneios, mas a diferença é que agora existe talento suficiente para não depender exclusivamente dele.

“No passado, isso tinha de ser assim porque a qualidade atrás dele era menor. Agora, Cristiano tem provavelmente o melhor meio-campo do Mundial a apoiá-lo e, por vezes, parece estar a limitá-lo”, escreve.

E vai mais longe:

“Na maioria das vezes, Ronaldo parecia simplesmente ocupar espaço”.

A publicação britânica entende ainda que os companheiros de equipa insistiram excessivamente em procurar o capitão.

“Em alguns momentos a falta de egoísmo dos colegas na tentativa de servir o número sete pareceu prejudicar a equipa. Foram desperdiçadas situações melhores para o encontrar”, refere.

E a comparação com os restantes astros do futebol mundial surge de forma inevitável:

“Cristiano viu Messi marcar três golos. Haaland e Mbappé fizeram dois cada um. Esta foi a sua resposta. E foi uma resposta pobre”.

João Neves e Vitinha escapam às críticas

Se houve um jogador consensualmente elogiado, foi João Neves. Os espanhóis da Marca descrevem o médio português como “um fenómeno mundial” e arriscam-se mesmo a questionar “e se os 150 milhões de Florentino Pérez tivessem sido para João Neves?”.

Também o AS considera João Neves “o jogador mais indecifrável” de Portugal e salienta a sua capacidade de aparecer em zonas de finalização.

A Marca destaca ainda a parceria do jogador do PSG com o colega Vitinha — aquele que foi a peça mais importante na distribuição de jogo, na opinião do jornal —, considerando que ambos formam uma dupla que funciona “na perfeição”.

“Assim não, Bernardo” — nem assim, Rafael Leão

Mas se João Neves sai valorizado, Bernardo Silva vive o cenário oposto. Horas depois de ter sido anunciado como reforço do Real Madrid, o médio foi um dos principais alvos da Marca, que escolheu para a manchete: “Assim não, Bernardo…”.

Para o diário espanhol, a estreia do internacional português foi “terrível”:

“Apenas durou 45 minutos e saiu com um cartão amarelo, cinco bolas perdidas e sem criar qualquer perigo. Estreia intranscendente”.

Já o AS considera que Bernardo Silva esteve perdido “numa teia de pernas congolesas” e refere que o ex-Manchester City não pareceu confortável em nenhum momento.

Mas Rafael Leão também não convenceu. A Marca volta atrás no tempo para recordar os tempos em que o português era apontado aos maiores clubes da Premier League e tinha uma cláusula de rescisão de 175 milhões de euros.

“Ver para crer naquilo em que Rafael Leão se transformou”, escrevem.

“O seu Mundial começou quase tão insípido como as últimas temporadas. Entrou para resgatar uma Portugal bloqueada e não teve personalidade sequer para se salvar a si próprio”.

Na opinião do jornal, o extremo do Milan praticamente não procurou o um para um e limitou-se a tocar na bola cerca de quinze vezes.

No entanto, nos Estados Unidos diz-se que o principal culpado é Roberto Martínez e as decisões que toma.

Apesar de escrever que “aos 41 anos, talvez um papel como suplente fosse mais adequado” para Cristiano Ronaldo, mas que, em vez disso, “previsivelmente, jogou os 90 minutos” e “também previsivelmente, ofereceu muito pouco”, o New York Times considera que a falta de criatividade ofensiva não pode ser atribuída exclusivamente ao capitão português.

“Um único remate enquadrado quando se teve 75 por cento de posse de bola evidencia o quão inofensiva foi Portugal”, argumentam.

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